Psico-oncologia

Como é que alguém pode ser grato a um cancro?

Nos últimos anos tem havido uma crescente valorização da leitura mais positiva das consequências dos eventos traumáticos. Esta leitura não rejeita a possibilidade de perturbação (por exemplo, stress pós-traumático), no entanto, considera que o trauma pode levar ao crescimento pessoal.

Trata-se de crescimento pós-traumático. Um processo cognitivo através do qual o sujeito que vivenciou um trauma consegue identificar mudanças positivas (em si e na sua vida) e é capaz de encontrar significado para a experiência traumática (por exemplo, “O cancro, enquanto experiência, amadureceu-me emocionalmente. Precisava de ter tido cancro para estar melhor preparada para enfrentar a vida.”)

O crescimento pós-traumático distingue-se de conceitos como RESILIÊNCIA e OTIMISMO, porque, ao contrário destes, implica uma mudança qualitativa no funcionamento psicológico do indivíduo (isto é, o indivíduo sai da experiência com competências aumentadas, por exemplo, “Sou mais capaz…”, “Valorizo mais…”). Este crescimento é comum, mas não é universal a todos os que vivenciam um trauma.

De notar ainda que este crescimento não protege o indivíduo de experienciar dor e sofrimento, nem incrementa os seus níveis de felicidade. Também não é um resultado necessário para a recuperação total do trauma.

Dra. Jéssica Torrado, especialista em psico-oncologia, cédula n.º 26690