Qual o impacto que o isolamento social pode ter no funcionamento cognitivo?

A estimulação que os contactos e as interações sociais proporcionam ao nosso cérebro é ampla, elaborada e única; sendo a sua importância reconhecida e valorizada pelo seu papel neuroprotetor. Perante isto, e face às circunstâncias e exigências de confinamento que a pandemia covid 19 nos tem colocado, faz sentido questionar, qual o impacto que o isolamento social, a solidão e o empobrecimento do contacto social têm na atividade cognitiva complexa.

Dos trabalhos que já vinham sendo feitos, no período pré-covid 19, os resultados apresentados sugerem uma associação entre o isolamento social ou os baixos contactos sociais com pior função cognitiva (Shankar et. al, 2013) e com o declínio cognitivo (Read et. al, 2020).

Num estudo de 2019, a solidão foi associada a baixos valores de desempenho cognitivo global, memória imediata e memória diferida, fluência verbal e digit span por ordem inversa (medida de memória de trabalho e atenção executiva); por sua vez, o isolamento social foi associado a baixos valores de desempenho cognitivo global, fluência verbal e a digit span por ordem direta (medida de atenção áudio-verbal).

De momento, ainda é muito cedo para se saber e hipotetizar, quais as reais consequências cognitivas, a longo prazo, relacionadas com este período de isolamento prolongado, consequente dos confinamentos. No entanto, conclusões de trabalhos realizados, já no decorrer deste período, sugerem que o tempo prolongado num ambiente socialmente empobrecido foi prejudicial para a função cognitiva (Ingram et. al, s/d); assim como, neste tempo de isolamento e diminuição do contacto social foram identificadas queixas subjetivas em tarefas de atenção, orientação temporal e funções executivas, enquanto nenhuma alteração se registou nas capacidades linguísticas (Fiorenzato et. al, 2021). Em congruência com estes resultados, Bzdok e Dunbar (2020) mostraram como o isolamento social tem um efeito negativo nas capacidades cognitivas, em particular, nas capacidades mnésicas e nas funções executivas.

Todavia, e contando que as circunstâncias da pandemia covid 19 serão temporárias, também é provável que as alterações, para a maioria das pessoas, a este nível, sejam reversíveis. Fazendo valer, em termos práticos, os conhecimentos que conferem neuroplasticidade, reserva cerebral e reserva cognitiva ao nosso cérebro.

Assim, dependendo do ponto em que cada pessoa estava aquando dos confinamentos, mais ou menos conseguirá reverter o seu impacto. Naturalmente que, para as pessoas de mais idade, ou já com algum comprometimento cognitivo (DCL – défice cognitivo ligeiro), ou que pertença a grupo de risco para DCL, muito provavelmente possam vir a necessitar de intervenção e acompanhamento neuropsicológico.


Referências

Bdzok, D. e Dunbar, R. (2020). The neurobiology of distance. Trends Cognitive Sciences, 24(9):717-733.

Ingram, J., Hand, C. e Maciejewski (s/d). Social isolation curing covid 19 lockdown impairs cognitive function. OFS Preprints, consultado em OSF Preprints | Social isolation during COVID-19 lockdown impairs cognitive function.

Shankar, A., Harmer, M., McMunn, A., e Steptoe, A. (2013). Social isolation and loneliness: relationships with cognitive function during 4 years of follow-up in the english longitudinal study of ageing. Psychosomatic Medicine, 75(2):161-70.

Fiorenzato, E., Zabberoni, S., Costa, A., e Cona, G. (2021). Cognitive and mental health changes and vulnerability factors related to covid 19 lockdown in Italy. Plos One. Consultado em https://doi.org/10.1371/journal.pone.0246204

Read, S., Comas-Herrera, A., e Grundy, E. (2020). Social isolation and memory in later-life. The Journals of Gerontology, 75(2): 367–376.

Lara, E., Caballero, F., Rico-Uribe, L., Olaya, B., Haro, J., Ayuso-Mateos, J., e Miret, M. (2019). Are loneliness and social isolation associated with cognitive decline? International Journal Geriatric Psychiatry, 34(11):1613-1622.


Dra. Dulcineia Boto, cédula n.º14875